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Entrevista ao Prof.Doutor. António Vicente - Futebol de formação

  • 9 de out. de 2014
  • 19 min de leitura

Antes de mais, gostaríamos de agradecer ao Professor por toda a sua disponibilidade e ajuda no projeto e na perceção do jogo.

A quem nos leva a "pensar futebol", um muito obrigado.

Bruno e Tiago

- Qual a relação do Prof. António Vicente com o Futebol?

Desde logo, sou, neste momento, docente do Departamento Ciências do Desporto, estou a lecionar a disciplina de Estudos Práticos -Futebol aos alunos de 2º ano da licenciatura em Ciências do Desporto. A minha ligação ao futebol tem já vários anos.

Tal como quase todas as pessoas, dei os primeiros pontapés na bola no parque, depois na escola, mais tarde fui um jogador medíocre e percebi que não tinha muito jeito para jogara sério.

Fiz a minha formação na Faculdadeda Motricidade Humana e aprimorou-se aí o gosto pela modalidade. Depois pude desenvolver esse gosto quando estive em Manchester no penúltimo ano do curso.

A seguir, tive a oportunidade de ir estagiar nas Escolas de Formaçãodo Sport Lisboa e Benfica, num projeto que estava então a dar os primeiros passos. Tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas muito interessantes, uma delas o António Fonte Santa, um dos responsáveis pela Escolas de Futebol que me marcou decisivamente na forma como passei a encarar o futebol e a vê-lo de uma outra maneira.

Entretanto, cheguei no início de 2003 à UBI, onde tive a oportunidade de conhecer o Professor Fernando Almada que, com o conhecimento que desenvolveu, com as propostas que estruturou, permitiu enquadrar o futebol, fundamentar, aprofundar e estruturar a visão que eu já trazia do mesmo, dando-lhe uma outra sustentabilidade, um outro conhecimento que se desenvolveu posteriormente nas teses de mestradoe de doutoramento dando assim mais corpo ao trabalho que vinha fazendo sobre a modalidade.

Tenho também o grau I e II (UEFA B) de treinador de futebol eestou a finalizar o grau III (UEFA A) em Inglaterra, mas mais por curiosidade, para perceber o que se faz num dos países onde o futebol é mais rico e interessante, como funciona, complementando e enriquecendo o conhecimento.

- Quais as principais mensagens que tenta passar aos seus alunos da disciplina de Futebol?

Logo à partida, a de que o futebol talvez não seja das coisas mais importantes na vida. Que há coisas mais importantes que o futebol, mas que ele pode ser decisivo na vida.

O futebol é apenas uma atividade desportiva que deve servir para transformar as pessoas. No fundo, para podermos criar pessoas mais felizes e ajudar a construir pessoas que tenham uma vida melhor. Naturalmente o futebol pode servir para tudo e mais alguma coisa, desde entreter, até perder peso, ganhar peso ou massa muscular, ou mesmo perdê-las, enfim, para tudo o que quisermos e soubermos.

Preocupa-me que as pessoas fiquem agarradas a alguns estereótipos que existem ou vão existindo no futebol, que olhem muito para a modalidade apenas ou essencialmente na sua vertente técnica, tática ou fisiológica.

No fundo, pretendo passar aos alunos uma visão mais abrangente e holística do futebol, que se centra em primeiro lugar na importância da pessoa, do futebolista,e depois um conjunto de ferramentas para que se possa intervir nas pessoas através da modalidade de uma forma mais proveitosa.

- Como descreveria a sua passagem pelas camadas jovens do Benfica?

Foi uma experiência positiva, fundamental pelas pessoas com quem tive oportunidade de trabalhar e pela forma como passei a ver o futebol. Foi também muito enriquecedor para experimentar um conjunto de situações, para testar alguns exercícios, algumas ideias que pensava que estavam certas e que afinal não estavam,e outras que pensava que não resultavam mas afinal resultam.

No fundo foi um bom treino, muito enriquecedor, que me permitiu ver que é possível trabalhar no futebol de maneira diferente daquilo que tradicionalmente se ensina e trabalha, que é possível ter resultados muito bons e até melhores trabalhando de maneira diferente.

- Como carateriza a sua metodologia de treino na formação?

Não sei se é já uma metodologia ou sequer um método, mas um dos pontos que eu acho fundamentais na formação é fazer perceber aos futebolistas que o importante do jogo de futebol não é a bola mas sim o "jogo com o outro". É esse o grande desafio, porque aquilo que normalmente atrai as pessoas para o futebol é a bola. Mas mesmo os melhores jogadores do mundo acabam por ter a bola no pé no máximo 2 ou 3 minutos durante o jogo, quer dizer que é preciso preparar os jogadores para saber o que fazer durante o restante tempo do jogo, e mesmo esse restante tempo do jogo tem uma solicitação fundamental que é a relação com os outros, com os seus companheiros de equipa.

É necessário que se saibam coordenar entre eles de forma a cumprir os objetivos da equipa, mas também com os adversários, sabendo como os impedir de atingir osseus objetivos, e até para que não marquem golo. Mas é necessário perceber que o futebol é também a relação com o público, com a comunicação social ou com os próprios treinadores pelo que estas coordenações são também importantes.

Se ensinarmos na formação que o principal é a relação com os outros depois é relativamente fácil, ou pelo menos será mais coerente, treinar a técnica que os futebolistas precisam ou os aspetos táticos que possam necessitar para dominar o jogo, os fisiológicos, os psicológicos ou quaisquer outros.

O fundamental é despertar nos jovens futebolistas a relação com o outro, estarem permanentemente centrados e preocupados com o que se passa à sua volta, em como conseguir ajudar os seus companheiros de equipa a serem bem sucedidos e evitar que os adversários consigam os seus objetivos.

- Como é que se treina essa relação com o outro?

Treina-se criando jogos, exercícios, situações,em que os futebolistas sejam constantemente obrigados a estar em relação, confronto ou na colaboração, com os outros.

Não é possível desenvolvermos este relacionamento com os outros se eles não forem constantemente confrontados com a necessidade de decidir, de optar, de ter de se relacionar com os adversários, com os seus colegas e ter de encontrar as melhores formas de poder atingir os seus objetivos. Depois, a bola estará lá, é um dos objetos que permite resolver o problema mas é apenas uma ajuda, a bola é apenas um meio para a relação, não é o fundamental.

O fundamental não é saber aplicar uma força na bola, isso é relativamente fácil de fazer. Até porque se o futebol fosse apenas o jogo com a bola, o aplicar forças na bola, então qualquer artista de circo era muito melhor futebolista do que os que conhecemos.

O essencial é saber o que fazer na relação com os companheiros de equipa e no jogo com os adversários, para que quando se tiver a bola se conseguir marcar golo e quando não se tiver se conseguir recuperá-la rapidamente para atingir o objetivo o golo.

Mas para se concretizar esta ideia é preciso que os treinadores tenham como principal preocupação, em qualquer exercício que proponham, solicitar a relação com os outros. Se esta solicitação para a relação com os outros não existir ou não for predominante dificilmente estaremos a contribuir para uma sólida formação dos futebolistas.

Quando depois se dominam alguns aspetos desta relação com os outros pode-se, então, ir um pouco mais longe, aprimorando estas relações e desenvolver aspetos técnicos, táticos, fisiológicos, psicológicos ou outros,mas sempre visando dar suporte à relação com os outros e às suas interações.

- O professor fala muito de diagnóstico, prescrição e o controlo de treino, de que forma é que isso pode ajudar na evolução do futebolista?

No fundo, é um método que nos deve guiar quando nós temos a responsabilidade de treinar quem quer que seja, independentemente da modalidade desportiva.

Devemos sempre começar por conhecer quem é a pessoa que esta à nossa frente, que problemas ela pode ter, que dificuldades ela pode viver ou ter vivido, e quais são as suas potencialidades. Se não soubermos isso não conseguimos definir o trabalho a realizar com ela, não conseguimos definir os exercícios que temos derealizar e o que temos de fazer no dia-a-dia, e emcada um dos treinos.

Quando conseguimos conhecer essa pessoa, sabermos quem ela é, que capacidades e potencialidades tem, então aí passamos à prescrição, que no fundo é encontrar os exercícios que nos permitam alcançar os objetivos que temos definidos para aquela pessoa ou grupo de pessoas.

Depois, não chega apenas aplicar os exercícios e ficar a descansar, é preciso verificar se os exercícios correspondem aquilo que nós estávamos à espera, se permitem atingir os objetivos definidos e isso faz-se controlando os treinos, verificando se efetivamente houve uma evolução nos desportistas.

Isto são três ferramentas muito simples mas que definem o caminho que devemos percorrer quando estamos a orientar qualquer atividade desportiva. Em particular no futebol é fundamental seguir este método. Sem esta preocupação qualquer um pega num livro de exercícios de futebol, faz o exercício 342 ou 143 e fica à espera para ver o que dali pode resultar, mas será apenas uma questão de fé ou de sorte.

No entanto, para que não fiquemos sujeitos a esta aleatoriedade ou, simplesmente, nos sujeitemos à sorte dos exercícios, é preciso um método. Esse método pode ser um conjunto de ferramentas tão simples como estas: o diagnóstico, a prescrição e o controlo, que nos permitem rentabilizar o trabalho que fazemos com os futebolistas e obter melhores resultados.

- Mais especificamente, qual deve ser então o ponto de partida para a criação de exercícios?

Antes de se escolher ou criar exercícios é preciso saber o que se pretende resolver, que objetivos se pretendem alcançar. O mais fácil é criar exercícios, basta ter um pouco de imaginação e todos conseguimos criar exercícios e suas variantes.

A dificuldade está em definir os objetivos, o que queremos alcançar, o que queremos trabalhar especificamente com o futebolista, o que queremos transformar naquela pessoa para que ela consiga melhorar. Quando conseguimos identificar claramente isto, quando soubermos o que alguém precisa de treinar para ser melhor, então é relativamente fácil encontrar ou criar os exercícios que nos permitam trabalhar o pretendido.

Depois, naturalmente, teremos de controlar se efetivamente os exercícios estão ajustados àquela pessoa, se ela está a evoluir como nós desejaríamos ou como seria previsível, se é preciso fazer algum ajuste ou não, isto é, controlar a evolução da pessoa.

Mas no futebol ainda é muito comum que qualquer pessoa se julgue competente para ser treinador. É relativamente fácil encontrar pessoas que estão a “treinar” no futebol sem terem formação, isto é, sem terem feito mais do que terem sido futebolistas, ou alguns até simplesmente terem dado uns pontapés na bola. E esta realidade não tem paralelo em outras áreas. De certeza que não temos como pré-requisito para alguém poder ser juiz que tenha sido previamente ladrão, ou que para ser médico tenha sido doente crónico.

No futebol, infelizmente, as pessoas pensam que todas sabem tudo sobre o jogo e qualquer um pode encontrar métodos e exercícios para ensinar alguém a jogar futebol, mas não é verdade. Consegue-se fazer qualquer coisa para entreter pessoas a jogar à bola, isso é verdade, mas para treinar futebolistas é preciso um conhecimento mais substancial, mais profundo e mais objetivo. É esse conhecimento que permite que se saiba claramente o que se deve fazer, para que se deve fazer e como se controla. Deste modo já se conseguirá ter mais garantias de que os resultados e os objetivos poderão ser alcançados.

- Nessa lógica de criação de exercicios, entende que se deve criar um modelo de jogo desde as camadas jovens até aos séniores, fazendo viver os jogadores sempre as mesmas rotinas que serão apresentadas no futuro na equipa sénior ou deve-se criar uma "ideia tipo" de jogador que se quer formar para depois dar resposta a diferentes contextos e formas de jogar?

Eu acredito que na formação a principal preocupação é ensinar às crianças e jovens o que é o futebol. Eles devem conseguir compreender o que é a modalidade e dominar um conjunto de ferramentas que lhes permitam resolver os problemas da modalidade.

O modelo de jogo é algo que, na minha opinião, só faz sentido quando serve para adaptar em função das caraterísticas dos jogadores que temos. E quando estamos a trabalhar na formação há muitas caraterísticas que ainda não estão definidas.

Por exemplo ,alguém sabe se uma criança de 8 anos vai ser defesa direito, avançado ou mesmo guarda-redes? Algumas das caraterísticas já estarãodelineadas nesta idade, talvez maisas psicológicas, mas não estarão completamente fechadas ou marcadas. No entanto, a nível fisiológico, por exemplo, ainda está quase tudo por definir.

Com 8 anos é muita a incerteza que se tem sobre a força ou a velocidade que aquela pessoa poderá vir a ter daqui a 10 ou 20 anos. Mas mesmo a nível técnico ou tático, por exemplo, não será, seguramente, muito diferente. Por isso, o fundamental, julgo, será não colocar as crianças em “caixotes”.

Digamos que o modelo de jogo para as crianças será um “caixote” em que as podemos tentar lá colocar dentro e condicionar para que elas joguem da maneira que nós gostaríamos. Pelo contrário, na formação devemos possibilitar uma abrangência tão grande quanto possível de vivências no jogo às crianças para que estas o possam compreender, dotando-as de um conjunto de ferramentas que lhes permitam resolver os diferentes tipos de problemas que poderão encontrar, dando-lhes até a riqueza de poderem passar por diferentes funções que vão poder desempenhar num jogo de futebol.

Imaginem a riqueza de um jogador que aos 25 anos é avançado mas que aos 8 anos era defesa ou guarda-redes. Como passou por essas funções, conseguirá ter uma noção muito mais clara do que as mesmas exigem e solicitam quando estiver em confronto direto com os seus adversários ou quando se tiver de relacionar diretamente com eles, sabendo que aspetos tem que ter em conta para poder resolver os problemas que encontrará e marcar golo.

É essencial que na formação se tenha o extremo cuidado de não forçar as crianças ou jovens a fazer ou ser algo que ainda não sabemos se será benéfico para eles, se está de acordo com as suas caraterísticas e potencialidades.

Não percebo como é que algumas pessoas conseguem ter modelos de jogo na formação. Quer dizer, percebe-se: é tentar forçar crianças e jovens a serem aquilo que não sãoou não se sabe se poderão vir a ser. Isto só leva a que exista um desperdício muito grande, jovens futebolistas que podiam ser muito bons mas que por alguma razão foram “empurrados”para jogar de uma maneira que não era natural neles e depois acabam, mais tarde, por desistir da modalidade.

Não podemos garantir que não tenham existido futebolistas com mais potencialidades do que os que hoje conhecemos mas que tenham sido desperdiçados ou tenham desistido por erros destes.

- Não acredita que devem existir linhas orientadoras mesmo nos jovens futebolistas que ditem a forma como eles se devam comportar em campo, algumas noções gerais?

Sim, mas isso é essencialmente com base na compreensão do que é o jogo de futebol, não naquilo que é uma ideia do treinador sobre a forma de como resolver alguns problemas específicos e particulares no futebol. Isso é outra coisa completamente diferente.

É fundamental dar instrumentos à criança para ela poder saber jogar em inferioridade e superioridade numérica, com mais espaço, com menos espaço, contra um conjunto de adversários de caraterísticas diferentes, jogando em zonas mais avançadas e mais recuadas do campo, com pressão, sem pressão, cansada, sem estar cansada e todos os princípios que consigamos imaginar.

Agora, isto é muito diferente de dizermos a alguém de 8 anos que a partir de agora vai ser defesa direito, vai jogar em 20 metros, que é o único espaço que tem para correr, ou que faz só e apenas determinadas ações que o treinador lhe impõe.

Isto é uma visão completamente redutora do que é o futebol porque provavelmente aquela pessoa nunca vai compreender outras particularidades do jogo para desenvolver outras ferramentas que lhe permitam depois ser um jogador mais evoluído, mais completo a médio/longo prazo.

- Ainda em relação à formação. Fala-se muito da atual falta de criatividade e irreverência por parte dos jogadores vindos da formação. Qual a relação que estabelece entre essa falta de criatividade e a rigidez dos sistemas táticos?

Julgo que não é só da rigidez dos sistemas táticos, talvez isso seja uma consequência também porque está mais na moda.

Estou em crer que é fundamentalmente resultado dos treinos que são realizados, de estes serem espaços muito pouco criativos.

Se tivermos treinadores que não se preocupam com as crianças e os jovens, mas, pelo contrário, apenas se preocupam com os exercícios de treino, em fazer os exercícios que eles gostam, em que estão mais à vontade, naturalmente, todo o trabalho que vão fazer será para condicionar os futebolistas para que os exercícios corram bem, para que corram como eles gostariam ou esperam. E os exercícios só correm bem quando permitem transformar alguém no sentido pretendido, independentemente da pessoa estar a fazer o que nós gostamos ou gostaríamos que fosse feito ou não.

Se o exercício permite atingir os resultados e objetivos pretendidos para cada pessoa então é porque está a ser bem feito e devemos continuar.Se não há que mudar.

O que se passa, julgo, é que se fará dos treinos momentos aborrecidos em que se estarão a fazer coisas convencidos que são importantes para saber jogar futebol mas em que nem sequer se joga. Não é por acaso que ainda vamos sabendo de alguns jogadores que têm mais criatividade ou conseguem de alguma maneira resolver os problemas de futebol, oriundos de países onde o treino se faz essencialmente na rua. Quando isto acontece é revelador de que algo vai mal nos treinos.

Se o treino não serve para desenvolver, para potenciar a criatividade, ou a inteligência dos jogadores, para que estes compreendam o jogo e consigam encontrar formas diferentes de resolver os seus problemas, então é porque algo está profundamente errado no treino que se faz.

Se os jogadores são o que são hoje em dia, tanto para o bem como para o mal, a responsabilidade é dos treinadores.

Frequentemente sentimos que existem jogos que perdem o interesse porque acabam por ser uma coisa tão desprovida de criatividade, sem soluções novas e sem que exista algum jogador que traga brilhantismo ao jogo. Isso só pode ser consequência do trabalho que os treinadores têm vindo a assumir. E naturalmente as questões relativas aos modelos de jogo ou até às questões mais táticas, como se referiu anteriormente, terão aqui também a sua influência.

Este é um assunto sobre o qual temos de refletir seriamente,ou pelo menos tentar perceber se é este o futebol que queremos ou não. Se por um lado queremos um futebol mais mecanizado, em que os jogadores têm as suas funções definidas exclusivamente de acordo com aquilo que são as orientações do treinador ou se, por outro lado, queremos jogadores que desempenham as suas funções dentro de alguns limites que são definidos pelo treinador mas que continuam a ter a capacidade de serem criativos, autónomos, independentes, de decidir por eles próprios e em cada momento encontrar a melhor decisão para resolver os problemas queo jogo lhes coloca.

- Acha que está relacionado o aumento dessa rigidez tática com a vontade de ganhar por parte do treinador?

Julgo que o que está em causa é essencialmente a vontade de não perder. As equipas, tirando raras exceções, não jogam para ganhar mas sim para não perder. Basta ver os resultados mais frequentes nos jogos de futebol.

Dificilmente vemos resultados em que as equipas marquem mais de 2 ou 3 golos durante um jogo de 90 minutos. Tirando casos muito excecionais, só se consegue compreender que existam tão poucos golos, quando os treinadores são demasiados cautelosos e quando preferem jogar para não perder. Só depois de conseguirem ter uma segurança defensiva é que apostam na capacidade ofensiva para tentar marcar golo.

Atualmente são vários os treinadores que assumem que uma equipase deve começar a construir“de trás para a frente”, da defesa para o ataque. Isto demonstra, claramente, que a preocupação é não perder e depois então, e se for possível, ganhar.

Estou convencido que deve ser precisamente o contrário: a proeza do jogo de futebol é o ganhar, como em tudo na vida.

Ninguém deve viver para não perder. As pessoas devem viver para serem felizes, para experimentarem o que têm de experimentar, fazer o que tiverem de fazer, sabendo que depois existirão momentos em que as coisas vão correr menos bem, em que vão errar, que vão perder, mas não há nenhum drama com isso pois faz parte de viver a vida.

O drama maior é quando não se quer viver, quando não se quer ganhar, não se quer jogar para ser bem sucedido, sempre a tentar empatar as coisas, sem se atingir os objetivos, simplesmente querendo que os outros também não consigam viver.

Creio que esta rigidez que tem vindo a sobressair nos últimos tempos resulta essencialmente daqui, de as pessoas não querem perder jogos, como se isso fosse o mais importante, mesmo mais importante do que ganhá-los.

- Não entende que existe um problema na falta de condições para quem trabalha na formação? Sabemos que para os jovens treinadores é difícil ter reconhecimento na formação, sendo um trabalho raramente bem renumerado e pouco duradouro.

O objetivo da formação,como qualquer outro, deve ser sempre ganhar. Mas têm de existir limites para o ganhar.

Na formação talvez esses limites sejam mais apertados e não se justifique ganhar a todo o custo.

Se tivermos de optar entre privilegiar a formação de um jogador ou a conquista de um campeonato, naturalmente que a formação dele deverá estar em primeiro lugar face ao campeonato.

Isto não quer dizer que vamos trabalhar na formação para perder jogos e perder campeonatos. Pelo contrário: deve-se sempre incentivar a que os jogadores queiram ganhar, ganhar sempre e com as melhores condições, sabendo que quando se está a trabalhar na formação os resultados podem demoram muito tempo a aparecer.

Por exemplo, trabalhar o futebol privilegiando a relação com os outros e não a relação com a bola seguramente fará com que se leve mais tempo até se atingirem resultados desportivos imediatos.

Isto não quer dizer que se tenha de optar por aquilo que é imediato, com resultados melhores, com mais vitórias.

A principal preocupação deverá ser a formação dos jogadores e então devemos centrar a nossa preocupação em dar-lhes as ferramentas que lhes permitam não ganhar apenas naquele ano, mas que sim ganhar nos próximos 15 anos. Podemos dar-nos ao luxo de no primeiro ou segundo ano não ganharmos nadaem termos meramente desportivos, não haverá problema nenhumse conseguirmos ganhar nos próximos 15 anos, aqueles 2 anos em que não ganhámos nada foram insignificantes.

O Manchester United, por exemplo, durante muitos anos não ganhou nadade significativo desportivamente, optando por fazer um trabalho intencional para que ao fim de alguns anos os resultados desse mesmo trabalho fossem sustentáveis e prolongados por muito tempo.

Quando se perde a noção do que é fundamental, se é ganharhoje ou nos próximos 10/15 anos de forma regular, as pessoas acabam por seguir o caminho mais fácil. Até porque frequentemente nem saberão se vão estar no clube nos próximos 10 anos como treinadores, e ficarão por isso convencidas de que se ganharem este ano terão mais condições para poder manter o seu posto, o que raramente é verdade.

Hoje em dia os jogadores já conseguem perfeitamente distinguir um bom treinador de um mau treinador, o que é um treinador que se preocupa efetivamente com eles de outro que se preocupa apenas em ganhar a todo o custo. E estou convencido queneste momento os jogadores já não deixam passar isto em claro e começam mesmo a mostrar a sua vontade para que as coisas mudem.

Há já algum tempo que são os próprios jogadores que despedem os treinadores. Mas o grande desafio, julgo, é conseguir ter treinadores na formação que não queiram imitar o que se faz em alguns clubes no futebol sénior,que não queiram simplesmente ir atrás das modas, porque quando assim é acabam por perder a noção do que é realmente fundamental fazer.

Existe uma geração nova, com formação, com qualificação na área de Ciências de Desporto, e em particular no futebol. A obrigação é que estas pessoas sejam muito competentes e consigam formar jogadores muito bons na formação, mas isto só se faz, atuando de forma diferente daquilo que se tem feito até agorae aplicando o conhecimento e as ferramentas que hoje já existem e nos permitem obter melhores resultados.

Não é possível ter jogadores criativos se não se potenciar a criatividade desde muito cedo, se tivermos, por exemplo, um treinador que quando vê um jogador fazer um “cabrito” a um adversário e falhe o golo porque se preocupou em fazer o “cabrito”, que repreenda o jogador e que o castigue por causa desse ato. Deve sim incentivá-lo. Não marcou golo, houve ali algum problema que não o levou a marcar golo. Mas o problema não é ele ter feito o “cabrito”, foi, ele não ter conseguido aplicar a força na bola, por estar extasiado depois daquele momento em que conseguiu ultrapassar o adversário.

Mas para atuar desta forma é preciso saber claramente o que queremos, onde devemos centrar a nossa atenção e não andar simplesmente em busca de resultados desportivos imediatos.

Depois há outro grande problema: as condições que são habitualmente oferecidas aos treinadores da formação não são nada aliciantes e motivadoras, o que faz com que a vontade de inovar também não seja muito grande. É natural que o estímulo não esteja tão presente como deveria estar. Aqui teremos de esperar que exista também alguma mudança nos dirigentes e que as direções dos clubes possam privilegiar pessoas que sejam competentes e dar-lhes as condições necessárias para elas desenvolverem o seu trabalho.

Julgo que nem será preciso algo de extraordinário, basta apenas alguma segurança e estabilidade para que o treinador possa organizar o seu trabalho e, por outro lado,continuar a apostar em quem é competente em vez de estar sempre à procura do próximo Mourinho e de ganhar simplesmente o campeonato este ano.

Talvez seja muito mais interessante apostar em treinadores que querem efetivamente potenciar jogadores, criar jogadores, que até podem não ser campeões este ano ou no outro mas que podem nos próximos 10 anos criar excelentes jogadores de futebol que poderão depois servendidos e trazer mais-valias muito importantes para o clube.

- Se fosse dirigente de um clube de formação de que forma escolheria um treinador?

Um dos pontos fundamentais terá de ser a formação que o treinador deve ter. Naturalmente que um requisito essencial é ser licenciado em Ciências do Desporto.

Depois, teria de discutir futebol com essa pessoa, saber qual a sua visão sobre o jogo, o que ela entende ser o trabalho a realizar na formação, estando de acordo com alguns dos princípios que temos vindo a falar.

Estando em sintonia teria de lhe dar a possibilidade de mostrar na prática como os implementava, ver se na concretização dos mesmos, no trabalho que faz diariamente com os jogadores,se efetivamente consegue cumprir e operacionalizar as ideias, ou não é capaz disso e tem um discurso diferente daquilo que é a sua prática. Em termos muito gerais, acho que deviam ser estas as preocupações de quaisquer dirigentes de um clube neste âmbito.

Temos de ter consciência que para ter pessoas a quem pretendemos exigir qualidade de trabalho, têm de ser dados alguns recursos. Por exemplo, não digo ainda que recebam o mesmo que os treinadores das equipas seniores mas tem de haver um mínimo que garanta dignidade e para que as pessoas sintam o seu trabalho recompensado e se sintam motivadas para treinar.

- De que forma é que um licenciado em Ciências do Desporto pode ser uma mais-valia na aprendizagem do futebol?

A formação de um licenciado em Ciências do Desporto deverá assegurar que este possui as competências necessárias para compreender a modalidade, compreender e saber intervir sobre os jovens futebolistas (transformando-os no sentido pretendido) e possuir ainda capacidade para se articular com a gestão macro do clube.

Esta formação deveria ser um requisito para poder trabalhar neste âmbito no futebol uma vez que nos permitirá ter garantias mínimas das competências destes profissionais que deverão muito além do mero domínio de alguns aspectos técnicos, tácticos ou mesmo fisiológicos da modalidade.

A formação e aprendizagem no futebol são bem mais complexas e deveremos ter pessoas envolvidas neste processo que tenham esta consciência e dominem um conjunto de ferramentas e instrumentos que as permitam intervir de forma coerente e rentável.

- Resumindo, quais acha que são os principais erros que se cometem na formação?

Essencialmente o fato de não se privilegiar a relação com o outro, o dar demasiada importância ao jogo com a bola e, eventualmente, em certos casos, existir um trabalho puramente tático, ou um trabalho já muito fisiológico que penso que continua a ser realizado em alguns sítios.

Julgo que o fundamental é o não dar dominância a nenhum destes fatores mas olhar para o futebol enquanto um todo, dando ferramentas às crianças e aos jovens para que elas possam dominar o futebol na sua globalidade e resolver os problemas que este lhes pode colocar.

Os outros aspetos e as outras dominâncias mais técnicas, mais táticas, mais fisiológicasou psicológicas, assentarão depois aqui na sua inter-relação. Essas, será possível, depois, trabalhá-las e aproximá-las daquilo que serão as exigências de um futebol sénior, com outro nível de competitividade, e em função das caraterísticas e potencialidades dos jogadores. Na formação a prioridade deverá ser a relação com o outro.

 
 
 

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Bruno Fidalgo

 

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